domingo, 23 de dezembro de 2012

Sexualidade Feminina

Filme sobre o primeiro vibrador elétrico retrata preconceito em torno da masturbação
por Simona Argentieri

Histeria é um filme leve, divertido, mas que retrata o que até há pouco tempo era tabu: o orgasmo feminino. O roteiro dirigido por Tanya Wexler é baseado na história real do brinquedo sexual mais conhecido: o vibrador elétrico, originalmente criado para aliviar os sintomas da histeria, “distúrbio” descrito já nas primeiras cenas como “um flagelo dos nossos tempos” por um dos antagonistas, o doutor Dalrymple (Jonathan Pryce), um respeitável psiquiatra da Londres de 1880 que acreditava que sinais como choro frequente, ansiedade e melancolia em mulheres tinham origem no útero. Seria preciso esperar ainda alguns anos para que o médico Sigmund Freud demonstrasse que a histeria era mais consequência da repressão sexual das moças de boa família que reflexo de problemas orgânicos.

A sala de espera do consultório do doutor Dalrymple está repleta de mulheres de todas as idades, bonitas e feias, viúvas e casadas, muito -bem-dispostas a se submeter periodicamente ao “tratamento” para alívio dos sintomas: uma cuidadosa masturbação clitoridiana que ele, compungido, administra em pé na paciente deitada na mesma posição de um exame ginecológico, com uma cortina vermelha cobrindo o ventre. O médico conta com óleos perfumados, habilidade manual e, sobretudo, paciência, como indica o relógio pendurado na parede, que anuncia os minutos, às vezes horas, necessários para provocar o “paroxismo histérico” – termo médico para o orgasmo obtido com as massagens. Com o tempo, o médico não consegue tratar toda a clientela, cada vez maior.

Enquanto isso, em um hospital da periferia de Londres, o jovem médico Mortimer Granville (Hugh Dancy), ávido pelas novas descobertas da ciência e questionador dos tratamentos clássicos, como as sangrias, é demitido pelo seu superior, que não acredita na teoria dos germes e na septicemia. Mortimer procura por trabalho em vários consultórios e, como é previsível, é contratado por Dalrymple, que sente dores nas mãos e cansaço por masturbar dúzias de mulheres por dia. As pacientes, por sua vez, se mostram entusiasmadas com o belo e tímido substituto. Um bem-sucedido retrato da medicalização da sexualidade feminina em um contexto de forte repressão – mulheres se conformavam em encarar o desejo sexual como um sintoma e em obter “alívio” no consultório, com o consenso da sociedade.

O psiquiatra tem duas filhas. Uma delas é Emily, uma graciosa estudiosa da frenologia de Franz Gall. Segundo essa teoria, hoje considerada uma pseudociência, o formato da cabeça e eventuais protuberâncias no crânio oferecem dados precisos sobre a personalidade e o caráter. Uma única apalpadela na cabeça de Mortimer é suficiente para “interpretá-lo” como um ótimo ajudante para seu pai – e um possível futuro marido. A outra moça é Charlotte, questionadora, feminista – considerada uma histérica pelo próprio pai –, que administra uma associação comunitária e prega o direito das mulheres à independência financeira e ao prazer. Crítica do tratamento realizado pelo pai, tem paixão em contradizê-lo e em deixar Mortimer embaraçado – e apaixonado – ao afirmar que ausência de orgasmo feminino se deve à falta de atenção dos homens, que não se dedicam às suas companheiras com frequência e por tempo suficiente. Nas cenas subsequentes, o jovem médico ganha a confiança de Dalrymple, mas também começa a ter dores nas mãos por causa do esforço repetitivo e passa a ter “problemas” para satisfazer as pacientes. Aí vem a descoberta: em uma noite na casa de um amigo rico e desocupado (Rupert Everett) que se diverte com invenções elétricas, o protagonista se surpreende com a pressão provocada em sua mão por um espanador elétrico que faz movimentos circulares. Obviamente não hesita em testá-lo na clientela.

Apesar do tom de comédia, o filme reflete o imaginário em torno da histeria no século 19. Em uma das melhores sequências, a feminista Charlotte, julgada em um tribunal por agredir um guarda, é chamada de histérica pelo promotor, que pede sua internação em um centro psiquiátrico e que seja submetida a uma cirurgia de remoção do útero, uma das desastrosas intervenções testadas para tratar histeria. O roteiro também relembra algo que até meados dos anos 20 era popular na Europa – a propaganda dos vibradores em revistas e jornais, vendidos como “massageadores”, aparelhos de uso superficial que dispensam penetração, ao contrário das variedades em formato de pênis, as mais populares hoje em dia nas sex shops.

HISTERIA.100 min – Reino Unido, 2011. Direção: Tanya Wexler. Elenco: Jonathan Pryce, Rupert Everett, Maggie Gyllenhaal
 

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