sábado, 25 de abril de 2015

O(s) silêncio(s) na clínica

No exercício profissional do psicólogo, principalmente os recém formados, uma das coisas que mais causa desconforto é o silêncio do paciente. Pacientes que falam demais ou que trazem dramas para dentro do setting muitas vezes são mais “fáceis” de manejar do que aqueles que ficam ali, diante do profissional ou no divã complemente em silêncio. Alguns soltam uma frase ou outra mas logo em seguida voltam a silenciar.

Classicamente a leitura é se tratar de uma resistência, resistência por parte do paciente em não poder (como um imperativo categórico inconsciente) revelar coisa alguma, pois isso o faria se deparar com seu desejo, e disso ele (e nós também) foge como o diabo foge da cruz. Gostaria de acrescentar duas possibilidades de compreensão do silêncio, como impossibilidade e como conquista, índice de saúde.

O silêncio da impossibilidade compreendo a partir da concepção de fragilidade egóica, em que o indivíduo, por conta de uma maternagem insuficiente, não pôde experienciar e registrar os eventos ocorridos em determinada fase de seu processo de amadurecimento. Neste caso o silêncio figura como a impossibilidade de dizer qualquer coisa, pois de fato, não há nada a ser dito:

“O paciente precisa ‘lembrar’ isto, mas não é possível lembrar algo que ainda não aconteceu, e esta coisa do passado não aconteceu ainda, porque o paciente não estava lá para que ela lhe acontecesse” (Winnicott, Medo do Colapso).

Agora o silêncio como conquista figura como um dos índices de saúde do sujeito. O paciente fica quieto como forma de não precisar dizer nada, poder ficar com si mesmo sem se sentir obrigado a responder ou dizer qualquer coisa ao psicólogo. Esta conquista se ampara no conceito de “capacidade de estar só”, uma conquista no processo de maturação em que o indivíduo fica só na presença do outro, sua existência assegurada pela presença do ambiente permitindo assim que simplesmente não diga nada, algo como aquele lugar em que as crianças brincam, sem dissociar da realidade mas também sem ficar o tempo todo verificando a consistência do ambiente, lugar esse chamado de espaço potencial, lugar dos fenômenos e objetos transicionais: “Em quase todos os nossos tratamentos psicanalíticos há ocasiões em que a capacidade de estar só é importante para o paciente.

Clinicamente isto se pode representar por uma fase de silêncio, ou uma sessão silenciosa, e esse silêncio, longe de ser evidência de resistência, representar uma conquista por parte do paciente. Talvez tenha sido a primeira vez que o paciente tenha tido a capacidade de realmente ficar só” (Winnicott, A capacidade para estar só).


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